Poderia acontecer num dia qualquer. Terça-feira, por exemplo, às 8h15. Alguns acordando, outros chegando perto do trabalho, a maioria já em plena função. Todos checam e-mails, Face, Insta e tudo quanto é rede social. Muita gente ouve música e outro tanto mata o tempo com joguinhos.

Enquanto alguns trocam mensagens, outros ainda usam o celular para conversar. São assuntos longos, muitas vezes íntimos, divididos com estranhos, sem o menor constrangimento. De repente, sem aviso prévio, os celulares emudecem. Saem do ar. Morrem nas mãos de seus donos espantados.

Os primeiros sessenta segundos são de perplexidade. As pessoas chacoalham o aparelho como se gritassem: “acorda! Fala comigo!”. Checam o equipamento por todos os ângulos, talvez na esperança de encontrar um botão de liga-desliga até então desconhecido. Os mais distraídos continuam a falar e custam um pouco a perceber o silêncio do outro lado da linha. não demora até que a cidade inteira caia na real. Não há mais celulares em São Paulo.

Os sentimentos variam do pânico absoluto à revolta generalizada. Afinal, paga-se uma fortuna para manter um telefone funcionando. Uns falam em pegar em armas, há quem sugira ocupar os prédios das operadoras até que se encontre a solução. Sem celular ninguém consegue fazer mais nada. Nem paquerar: o ato de cruzar olhares na rua e virar a cabeça para dar uma geral no alvo foi substituído por aplicativos que aliam cliques a sexo real. Sem isso, é preciso puxar assunto, sorrir, paparicar, uma trabalheira.

Nos escritórios, hospitais, aeroportos e rodoviárias, as pessoas só têm um assunto: o que aconteceu com os celulares? O resto do mundo tecnológico continua a mil por hora: internet, e-mails, tudo funciona. Até os telefones fixos estão em ordem, e há quem leve um susto quando escuta a campainha soando na sala ao lado. “Que barulho é esse?

O ser humano tem a capacidade fascinante de se adaptar a tudo na vida. aqui e ali já se notam os mais preparados para um mundo descelularizado. nas ruas, são eles que estendem os braços para chamar um táxi. Motoristas de Uber e Cabify entram em parafuso, porque não há como diferenciar seu carro do dos outros. Para piorar, sem aplicativo de itinerários ninguém sabe chegar ao seu destino.

Donas de casa retomam as listas de compras, cada vez mais detalhadas. acabou o recurso de o marido ligar desesperado diante da gôndola. “Tem 500 marcas de espaguete, amor. Qual você quer?” acabou também o sistema de recados. ninguém guardou o aparelho de bipe. Há quem tente usar aquelas coisas espetadas em postes, os tais orelhões. Esbarram na falta de prática e na surpresa: não se usa mais ficha?

Quem fica horas trancado em ônibus e metrôs lotados entra em desespero. O celular ajudava a passar o tempo e esquecer o trânsito engarrafado e a velocidade eternamente reduzida dos trens. Vai ser um tédio, porque ninguém se lembra de abrir um livro ou uma revista. “Ler no ônibus me dá enjoo.”

Desde abril passado que as crônicas do jornalista e dramaturgo paulistano Mário Viana se alternam com as do romancista Ivan Ângelo (mineiro de Barbacena) nas edições semanais da revista Veja SP, o maior e mais completo guia de entretenimento da cidade.